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A importância das evidências científicas na prescrição da cannabis medicinal

Cada vez mais surgem evidencias científicas sobre os benefícios da cannabis medicinal e sua utilização na prática clínica, principalmente quando o paciente não responde às terapias convencionais, incluindo medidas de cuidados de suporte.

A lista de potenciais usos médicos é grande e inclui o alívio da dor em doenças crônicas, inclusive no cenário de esclerose múltipla e lesões na medula espinhal. Além disso, pode ser utilizada para manejo e tratamento de doenças como a epilepsia, síndrome de Dravet, de náuseas e vômitos relacionados à quimioterapia, radioterapia e tratamentos de HIV, estimulação do apetite em pacientes com caquexia, anorexia, câncer e AIDS, redução da pressão intraocular para controlar o glaucoma e controle dos movimentos involuntários para pacientes afetados pela síndrome de Tourette [1, 2].

Tendo em vista o potencial, embora limitado, da utilidade da cannabis medicinal, a Organização Mundial da Saúde e o Comitê de Especialistas em Dependência de Drogas em 2019 destacou o papel terapêutico emergente dos medicamentos à base da cannabis, e apontaram recomendações para os seus usos médicos [4].

No entanto, o conhecimento percebido sobre a forma de administração e segurança da cannabis medicinal, as regulamentações sobre os seus usos, assim como a experiência geral dos médicos prescritores não são totalmente demonstrados no mundo todo.

Atitude e conhecimento em relação ao uso da cannabis medicinal entre médicos prescritores e seus pacientes

Em um estudo, publicado na revista Supportive Care in Cancer, os autores realizaram uma pesquisa entre médicos italianos, visando investigar o conhecimento percebido sobre a forma de administração e segurança da cannabis medicinal, as regulamentações sobre os seus usos, assim como a experiência geral dos médicos prescritores [5].

O questionário foi enviado para os médicos das seguintes especialidades: oncologia médica/hematologia, anestesiologia/terapia da dor, geriatria, medicina interna, oncologia por radiação, neurologia e outras. Também foram coletadas informações sobre local de trabalho, área de interesse (tipo de malignidade tratada) e população de pacientes (adulto/pediátrico).

Com base na legislação italiana, todos os médicos podem prescrever a cannabis medicinal, incluindo profissionais que gerenciam tarefas relevantes de cuidados de suporte no setor primário de saúde [6], desempenhando papéis determinantes no tratamento do câncer [7].

A pesquisa revelou que a maioria dos médicos está familiarizada com a Cannabis medicinal, os quais discutem seu uso com pacientes e/ou cuidadores [5].

Também, um terço dos entrevistados afirmou prescrever a cannabis medicinal aos seus pacientes, para gerenciar um amplo espectro de condições de saúde, principalmente dor e sintomas gastrointestinais e alguns psiquiátricos [5].

Apesar da ampla familiaridade com o assunto, uma pequena parcela dos entrevistados foi informada sobre as atuais legislações que regem o uso medicinal da cannabis na Itália, e tal conhecimento foi um possível determinante da probabilidade de prescrição, conforme encontrado na análise de associação múltipla [5].

Esses achados enfatizam uma lacuna na educação e no conhecimento dos profissionais, sugerindo a necessidade de reforçar o conceito de que a cannabis medicinal representa de fato um tipo de intervenção médica, com um perfil de segurança estabelecido e com indicações regulamentadas.

Prescrição da cannabis medicinal como parte do tratamento oncológico

Modelos in vitro e ex vivo recentes já demonstraram os efeitos antitumorais dos canabinóides [8], e apesar destas evidências pré-clínicas, um quarto dos médicos, que responderam à pesquisa, acredita que as ações anticancerígenas da cannabis aumentarão sua prescrição nos próximos anos [5].

Em outros países, outros autores também relataram os resultados de pesquisas sobre as atitudes e crenças dos médicos oncologistas. Por exemplo, nos EUA, um estudo pesquisou médicos oncologistas e outros provedores certificados pelo conselho de oncologia, incluindo ginecologia, oncologia neurológica, pediatria e hematologia, que relataram participação ativa no atendimento ao paciente [9].

As perguntas avaliaram os usos medicinais e práticas relacionadas à cannabis e avaliaram o conhecimento dos médicos sobre sua legalidade em seu estado.

Neste estudo, a taxa de resposta geral foi de 63%. Enquanto apenas 30% dos oncologistas se sentiram suficientemente informados para fazer recomendações sobre a cannabis medicinal, 80% conduziram discussões sobre ela com pacientes e 46% recomendaram seu uso [9].

As condições de maior prevalência em que os médicos acreditarem que a cannabis poderia ser usada medicinalmente, foram àquelas baseadas em dados científicos [9].

Sessenta e sete por cento consideraram um complemento útil para as estratégias padrão de controle da dor, e 65% acharam que a cannabis medicinal é tão ou mais eficaz do que os tratamentos padrão para anorexia e caquexia [9].

Outra pesquisa, realizada entre oncologistas israelenses, descobriu que embora uma proporção significativa dos médicos prescreva a cannabis medicinal, 90% deles relatam falta de conhecimento adequado sobre o assunto [10].

Essas pesquisas sugerem que, apesar das diferenças culturais e legislativas entre os vários cenários pesquisados na literatura, a lacuna entre os níveis de conhecimento e prescrição permanecem substanciais, destacando uma necessidade generalizada do estabelecimento de discussões sobre pesquisas, educação médica e política em relação à Cannabis medicinal.

Em suma, os resultados apresentados destacam uma discrepância significativa entre atitudes pessoais, níveis de prescrição e conhecimento real sobre a cannabis medicinal. E esta é uma questão crítica que deve ser enfrentada de forma sistêmica, construindo programas educacionais e diretrizes que sublimam as crenças pessoais dos médicos e predisposições, resultando em uma prática robusta e baseada na ciência dos efeitos da cannabis medicinal.

Desta maneira, é primordial o aprimoramento do conhecimento científico, por meio de ensaios clínicos bem delineados e um aumento da conscientização e educação médica sobre a evidências, indicações e formulações disponíveis da cannabis medicinal.

 

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Referência:

[1] Whiting PF, Wolff RF, Deshpande S, et al.: Cannabinoids for medical use: A systematic review and meta-analysis. JAMA 2015 313:2456-2473.

[2] McCormick MC: The Health Effects of Cannabis and Cannabinoids: Current State of Evidence and Recommendations for Research. Washington, DC, National Academies Press, 2017.

[3] Hill KP (2015) Medical marijuana for treatment of chronic pain and other medical and psychiatric problems: a clinical review. JAMA 313(24):2474–83. https://doi.org/10.1001/jama.2015.6199.

[4] WHO (2019) Cannabis recommendations. Available at: https://www.who.int/publications/m/item/ecdd-41-cannabis-recommendations.

[5] Filetti, M., Trapani, D., Cortellini, A. et al. Knowledge and attitudes of Italian medical oncologists and palliative care physicians toward medical use of cannabis in cancer care: a national survey. Support Care Cancer 2021 29, 7845–7854.

[6] Multi-Societal Strategy for cancer care (FAVO, AIOM, AIRO, SICO, SIPO e FNOPI). Documento programmatico per la XV Giornata Nazionale del Malato Oncologico.

[7] European Society for Medical Oncology (2020). ESMO Perspectives. It is time to extend the continuity of cancer care beyond hospital walls.

[8] Davis MP Cannabinoids for symptom management and cancer therapy: the evidence. J Natl Compr Canc Netw 2016 14(7):915–922.

9] Braun IM, Wright A, Peteet J, Meyer FL, Yuppa DP, Bolcic-Jankovic D, LeBlanc J, Chang Y, Yu L, Nayak MM, Tulsky JA, Suzuki J, Nabati L, Campbell EG (2018) Medical oncologists’ beliefs, practices, and knowledge regarding marijuana used therapeutically: a nationally representative survey study. J Clin Oncol 36(19):1957–1962.

[10] Mirelman D, Waissengrin B, Goldway N, Sharon H, Brill S, Wolf I Use of medical cannabis: perceptions of Israeli oncologists. Lancet Oncol 2019 20(4):475–477.